
Continuando com o texto postado ontém, hoje vou dar alguns exemplos de operações executadas com neurônios de McCulloch-Pitts. A propósito, a foto ao lado mostra o Walter Pitts.
Vou começar dando exemplos de funções lógicas booleanas implementadas por redes de neurônios de McCulloch-Pitts.
1) Função lógica E:
A tabela de verdade desta função é a seguinte:
X1 0 0 1 1
X2 0 1 0 1
A 0 0 0 1
A = 1 se X1 e X2 forem iguais a 1.
Uma rede de neurônios de McCulloch-Pitts que implementa o E lógico está mostrada no desenho abaixo (observe o valor do limiar do neurônio de saída):

2) Função lógica OU:
A tabela de verdade desta função á a seguinte:
X1 0 0 1 1
X2 0 1 0 1
A 0 1 1 1
A = 1 se X1 ou X2 ou ambos forem iguais a 1.
Uma rede de neurônios de McCulloch-Pitts que implementa o OU lógico está mostrada no desenho abaixo (observe o valor do limiar do neurônio de saída):

3) Função lógica E NÃO:
A tabela de verdade desta função é a seguinte:
X1 0 0 1 1
X2 0 1 0 1
A 0 0 1 0
A = 1 somente se X1 = 1 e X2 = 0.
Uma rede de neurônios de McCulloch-Pitts que implementa o E NÃO lógico está mostrada no desenho abaixo (observe o valor do limiar do neurônio de saída):

4) Função lógica OU EXCLUSIVO (XOR):
A tabela de verdade desta função é a seguinte:
X1 0 0 1 1
X2 0 1 0 1
A 0 1 1 0
A = 1 se X1 = 1 ou X2 = 1, mas não se ambos foram iguais a 1.
Uma rede de neurônios de McCulloch-Pitts que implementa o XOR lógico está mostrada no desenho abaixo (observe o valor do limiar do neurônio de saída):
A função lógica XOR pode ser expressa em termos das funções lógicas E NÃO e OU como:
X1 XOU X2 = (X1 E NÃO X2) OU (X2 E NÃO X1).
Note que a primeira parte da rede acima consiste de duas redes do tipo E NÃO e a segunda parte consiste de uma rede do tipo OU.
A seguir, vou mostrar um exemplo de aplicação do modelo de McCulloch e Pitts à modelagem de um fenômeno de percepção. Este exemplo está no artigo deles de 1943.
O fenômeno em questão é o da percepção de calor e de frio pela pele. Quando um objeto frio é encostado na pele e logo retirado, a pessoa tem uma sensação de calor (de queimadura). Já quando um objeto frio é encostado na pele por um longo tempo, a pessoa tem uma sensação de frio.
Seja a rede da figura abaixo: o neurônio 1 é um receptor de calor da pele, o neurônio 2 é um receptor de frio, o neurônio 3 causa sensação de calor quando ativado e o neurônio 4 causa sensação de frio quando ativado. Os neurônios A e B são interneurônios.
A tabela abaixo mostra a seqüência de eventos em um caso em que no instante inicial, t = 1, um objeto frio é encostado à pele e retirado logo em seguida. Isso provoca uma sensação de calor em t = 4.
Já a tabela abaixo mostra a seqüência de eventos em um caso em que o objeto frio fica em contato com a pele continuamente, provocando, em t = 3, uma sensação de frio.
Este modelo proposto por McCulloch e Pitts, embora bastante simples, já inclui alguns elementos importantes dos modernos modelos de redes neurais e de neurociência computacional. Por exemplo, ele contém três tipos de unidades: neurônios de entrada, neurônios de saída e neurônios “ocultos”. As unidades de entrada recebem os sinais, ou estímulos, vindos do ambiente externo à rede neural. As unidades de saída fornecem a resposta da rede ao padrão particular de estímulos que chega às unidades de entrada. As unidades ocultas (este termo foi introduzido bem mais tarde, em 1986, por Rumelhart e McClelland) não têm contato direto com o ambiente externo à rede (nem recebem, nem enviam sinais para ele), só interagindo com outros neurônios da própria rede.
Pode-se pensar na tríade, neurônios de entrada, de saída e ocultos, como inspirada na situação do cérebro, constituído por neurônios receptores sensoriais, neurônios motores e interneurônios. Porém, nem sempre o que se espera dos neurônios de saída é uma resposta motora. Ela pode ser um padrão de atividade que represente algum estado cognitivo, como uma categorização, ou uma emoção, por exemplo.
McCulloch e Pitts também se preocuparam em construir redes que modelassem como a memória pode ser armazenada. Vejamos os dois exemplos abaixo:

Suponhamos que, em ambos os casos, a célula 1 responda a um certo tipo de som e a célula S represente a memorização desse som.
Em (a), cada neurônio tem limiar 3 e o neurônio S fica ativado (armazenando a memória do som) somente após o som ter sido ouvido por três unidades de tempo consecutivas.
Em (b), o neurônio S tem limiar 1 e fica ativado (armazenando a memória do som) se o som tiver sido ouvido em qualquer tempo passado, mesmo que no tempo presente ele não seja ouvido. Neste caso, o mecanismo de memorização é reverberatório.
Note que, no caso (b), não existe um mecanismo de contagem ou estimação do tempo. Segundo McCulloch e Pitts, “a atividade regenerativa dos círculos constituintes faz referência indefinida ao tempo passado”.